Seidor
Brecha Digital

18 de julho de 2023

A outra brecha digital

Depois de alguns posts centrados na pura tecnologia, não é demais dedicar um momento para refletir sobre o mundo (não apenas) tecnológico que nos rodeia. Embora, felizmente, o usemos cada vez menos, o termo brecha digital tem servido tradicionalmente para denotar a escassez ou as desigualdades na distribuição dos recursos, infraestruturas e alfabetização digital entre determinados coletivos ou territórios, o que tem freado ou desequilibrado sua adoção generalizada. Não há nada que aconselhe que deixemos de nos referir a este conceito, mas os tempos mudam e o ambiente também está mudando (e muito). Pois bem, agora que coisas como o 5G parecem algo natural em nossas vidas, vamos evoluir um pouco o significado.

As novas arestas

Pensemos nessa outra brecha digital como algo com uma dimensão mais estratégica e global, e reflitamos sobre como está evoluindo esse mundo tecnológico em que nos movemos. Falemos de cenários desafiadores, de tensão ou de fricção global, por trás das cortinas da revolução digital. Como o tema é abrangente e tem dado (e continua dando) para escrever centenas de páginas, usarei a desculpa que me oferece a limitação de espaço deste artigo para enumerar apenas alguns deles:

  • Inovação (demasiado) fácil. Estamos percebendo que a inovação que está virando o mundo tecnológico de cabeça para baixo parece mais rápida, mais barata e mais democratizada, o que já está surpreendendo (e quase expulsando) muitos atores tradicionais desse mundo. O ritmo imprevisível com que estão sendo introduzidas determinadas disrupções (como a IA generativa, a computação quântica ou as tecnologias descentralizadas, para citar apenas alguns exemplos) está tensionando e desafiando continuamente os grandes fornecedores de tecnologia com a ameaça da irrelevância, porque pode ser que não tenham armas (além das financeiras) para competir contra as novas empresas tecnológicas, pequenas e ágeis, e, portanto, capazes de inovar - e de mudar completamente os paradigmas - de uma forma demasiadamente rápida e fácil.
  • O indivíduo no poder. Nem é preciso falar de empresas: um indivíduo, ou um pequeno grupo de indivíduos (com nenhuma organização, e nada moldáveis ou influenciáveis) pode estar sendo hoje em dia, pelo menos em alguns âmbitos do desenvolvimento digital, muito mais uma correia de transmissão da inovação do que algum gigante tecnológico, com todos os seus recursos e tentáculos. Façam a prova de dar uma olhada em como as coisas estão indo e o que está sendo cozido nessa panela de pressão da inovação que são os hackathons ou plataformas colaborativas como Discord, Mastodon ou outras. Já fazem isso há algum tempo as firmas de capital de risco que têm regado com milhões de dólares algumas startups que surgem desses jazigos.
  • Acumular informações já não serve. Quando estávamos nos acostumando a tratar a posse da informação como o novo petróleo (com os esforços econômicos que às vezes foram feitos para acumulá-la), pode ser que esteja chegando o momento em que o dado em si mesmo não traga mais muito valor, mas apenas a capacidade de produzir algoritmos preditivos ou de síntese. Esses algoritmos, por outro lado, chegarão a não precisar sequer coletar informações originais, pois funcionarão perfeitamente com dados gerados por outros. A informação em peso se desvaloriza, em comparação com a capacidade de fabricá-la.
  • Regular e paralisar. A explosão da IA está despertando os mesmos fantasmas que sempre atormentaram as sociedades diante das disrupções capazes de desafiar as estruturas ou os comportamentos tradicionais, especialmente quando não se foi capaz de prever como seria o mundo no dia seguinte. O ponto atual da sociedade é o de um irreprimível pavor (ou incerteza, o que é pior) a um hipotético domínio do mundo por parte de máquinas capazes de pensar – e, pior, de sentir – por si mesmas. Diante disso, as instituições políticas nacionais ou supranacionais estão começando a acionar a tradicionalmente pouco capaz, indiscriminada e paralisante máquina reguladora, incorrendo assim nos erros de sempre: análise simplista da realidade, nulo manejo da incerteza, e uma pavorosa lentidão de reação a mudanças tecnológicas e sociais que, no final, sempre acabam se infiltrando pelas brechas das normas.
  • A loteria dos recursos naturais. A natureza tem sido caprichosa com seu papel na evolução da tecnologia, situando a maioria dos depósitos naturais chave para a digitalização em zonas sob tensão, guerra, ou diretamente sob condições de trabalho pouco admissíveis do ponto de vista humano. Um exemplo é o cobalto mineral (essencial para a fabricação de, por exemplo, baterias de carros elétricos), cujos importantíssimos depósitos no Congo (que representam mais da metade da produção mundial) têm sido explorados com práticas trabalhistas frequentemente consideradas ilegais, e estão sendo gradualmente controlados por uma única potência, a China, que controla 44% da produção mundial e o refino de 77% deste mineral, segundo Darton Commodities. As tensões sobre esses recursos essenciais para a mobilidade do século XXI não só estão presentes, como também aumentarão com o passar do tempo.

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